
Na porta de vidro passa um autocarro
e um outro de pessoas sentadas e pesadas.
Um eterno desfilar de fumos de cigarro
e de gasolinas mal queimadas.
Nas faces aos vidros bem coladas
a lividez de um dia a expirar
rugas expressivas , bem vincadas
nas faces que nem esperam esperar.
Gira a roda do enorme rodado.
Lá dentro a mole vai mole de canseira
nem um sorriso mesmo que amarelado
torna menos triste a triste chiadeira.
Desesperanças de vidas sem esperança.
Desatinos de destinos sem destino.
Tantos olhares de próxima desconfiança.
Tão cheio e tão vazio no seu caminho !
Alguém se senta num banco meio ocupado
O corpo largo pisa o que já estava lá
E ambos vão sós e nem reparam que ao lado
vai um cego que igualmente tão só está.
Cada homem se enjoa da sua sombra.
A excepção que a todos fale parece louca
e um a um cada olhar frio sobre si tomba
e todos lhe querem fechar a boca.
Olhos indiferentes olham o levantado cego.
Mexem-se nervosos nos fundos amarrotados
com uma plácida irritação de desassossego
e ficam cegos , pela cegueira incomodados.
“Que se levante o outro.Este e aquele.
Porquê eu? “ E todos os eus pensam assim
e o cego lá vai ao atropelo e nada diz
porque todos serão cegos como ele.
Levanta - se então um vulto e profetiza:
“ Quem não vê o que deve ver
pode não ver quando quiser ver ! “
E então o cego fala pela primeira vez e ironiza:
“ Eu que não vejo,
vejo quem é cego
sem o ser !”