LISBOA POESIA EM SETE COLINAS 22

06.02.12

 

 

 

 

 

Em Agosto a cidade é um deserto

e as fontes morrem de sede.

O Rossio é ardente

e o ar é fogo e mais quente

que a terra quente.

As fachadas escorrem suor.

Os relógios andam devagar.

E os ponteiros ficam anémicos

sem forças para girar

e apenas por rotina vencem o torpor

e a custo lá vão dando a volta ao mostrador.

Mas em Agosto a cidade tem mais espaço

e mais livres são as ruas que percorro

e os caminhos por onde passo.

Em Agosto, Lisboa, quase que és só minha!

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publicado por jose murta lourenço às 11:12

LISBOA POESIA EM SETE COLINAS 21

31.01.12

 

 

Uma da madrugada. Adormeci.

Nada dentro de mim.

Ao redor a vida permanece pálida

hibernante

(ela também adormece)

e a noite é a sua morte

asfixiante.

Eu espero…

Eu espero toda a cidade à luz mortiça

de um candeeiro que arde.

Venham!

Venham cidadãos da noite!

Venham ratos das docas!

Venham prostitutas , proxenetas  e meretrizes!

Venham guardas - nocturnos!

Venham traficantes de tudo!

Venham farrapos!

Venham bêbados amargurados!

Venham estrelas mortiças!

Venham comigo…

…acender velas no meu túmulo!

 

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publicado por jose murta lourenço às 11:10

LISBOA POESIA EM SETE COLINAS 20

30.01.12

 

 

 

Cai a tarde. Cai a noite.

Cai a chuva miudinha em Lisboa.

Cai a tarde. Cai a noite.

Cai a camisa do pedinte.

Cai champanhe com requinte.

Cai chuva. Cai frio.

Cai sarilho.

Cai morto o maltrapilho.

Cai um corpo anafado

num sofá aconchegado

de um “ Pontiac “azulado.

Cai a tarde. Cai a noite.

Cai um gemido. Um ai.

 

Cai um beiral.

Cai um velho morto num quintal.

Cai a dama de salto alto.

Cai o pano no teatro.

Cai o véu.

Cai a tristeza.

Cai a dor.

Cai a chuva.

Cai o pranto.

Cai a música. Cai o canto.

Cai o vestido. Cai o manto.

Cai o maestro. Cai a batuta .

Cai  a morte. Cai a puta.

Cai a chuva.

Cai a indiferença.

Cai a noite em Lisboa…



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publicado por jose murta lourenço às 10:51

LISBOA POESIA EM SETE COLINAS 19

29.01.12

 

 

 

 

O sol cai. Esconde - se

para lá do continente.

E a gente não sai

indiferente ao sol que cai

se esconde e se esvai

para lá do continente.

No continente fervilha um mar de gente!

Corre atrás das nabiças

das garrafas e das hortaliças

e das roupas

de muitas roupas

e de montões de tudo.

Montões de papel higiénico

(não vá o diabo tecê-las)

e o dito cujo

ficar sujo

sem papel higiénico.

O mar de gente fervilha e polvilha

tudo quanto é lugar.

Forma bicha nos corredores

corre , gesticula e grita

grita que é só pagar!

No continente fervilha um mar de gente.

Gente que entra

gente que sai

gente indiferente

ao sol que hoje não mais verá

porque escondido já está

para lá do continente.



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publicado por jose murta lourenço às 16:47

LISBOA POESIA EM SETE COLINAS 18

27.01.12

 

 

 

Na  porta de vidro passa um autocarro

e um outro de pessoas sentadas e pesadas.

Um eterno desfilar de fumos de cigarro

e de gasolinas mal queimadas.

Nas faces aos vidros bem coladas

a lividez de um dia a expirar

rugas expressivas , bem vincadas

nas faces que nem esperam esperar.

Gira a roda do enorme rodado.

Lá dentro a mole vai mole de canseira

nem um sorriso mesmo que amarelado

torna menos triste a triste chiadeira.

Desesperanças de vidas sem esperança.

Desatinos de destinos sem destino.

Tantos olhares de próxima desconfiança.

Tão cheio e tão vazio no seu caminho !

Alguém se senta num banco meio ocupado

O corpo largo pisa o que já  estava lá

E ambos vão sós e nem reparam que ao lado

vai um cego que igualmente tão só está.

Cada homem se enjoa da sua sombra.

A excepção que a todos fale parece louca

e um a um cada olhar frio  sobre si tomba

e todos lhe querem fechar a boca.

Olhos indiferentes olham o levantado cego.

Mexem-se nervosos nos fundos amarrotados

com uma plácida irritação de desassossego

e ficam cegos , pela cegueira incomodados.

“Que se levante o outro.Este e aquele.

Porquê eu? “ E todos os eus pensam assim

e o cego lá vai ao atropelo e nada diz

porque todos serão cegos como ele.

 

Levanta - se então um vulto e profetiza:

“ Quem não vê o que deve ver

pode não ver quando quiser ver ! “

 

E então o cego fala pela primeira vez e ironiza:

 

“ Eu que não vejo,

vejo quem é cego

sem o ser !”



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publicado por jose murta lourenço às 17:57

LISBOA POESIA EM SETE COLINAS 17

26.01.12

 

 

 

 

Domingo à tarde .

Uma  T.V. vomita máquinas de lavar roupa.

Na esplanada alguma gente . Muito pouca.

Um corpo de mulher

que eu consigo ver cinquenta anos atrás.

O cabelo louro , um carrapito

e um nariz sedutor  num rosto bonito.

Há uma outra mulher mais nova

que eu vejo vinte anos mais tarde.

Sentar-se - á  então no futuro antecipado

recordando quem sabe

a flor da sua idade.

Lá fora a rua é um mar de tédio.

Um rosto ainda jovem fecha os olhos

doente

de doença ausente

mas sem cura nem remédio presente.

A tarde de Domingo arrasta-se

num pesadelo sem distância

num perto vazio

num certo frio

sem paisagem

sem fragrância

sem sons

sem palavras

sem  o calor das coisas naturais…

Apenas  bocejos e nada mais!



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publicado por jose murta lourenço às 15:00

LISBOA POESIA EM SETE COLINAS 17

25.01.12

 

 

 

 

Duas cadeiras conversam frente a frente

numa surdina de surdos que ninguém escuta.

Ficou - lhes o jeito da conversa curta

entre duas chávenas de café quente.

Há ainda uma caixa imóvel de guardanapos

um cinzeiro sem cinza respirando de alívio

umas pernas ausentes despidas de sapatos

sombras de insectos na pedra fria e lisa.

Outra cadeira conversa com um rosto

inexpressivo sorvendo  fumegante o café das sete

com o gosto prolongado de último café.

 

Instante  é o tempo onde também eu me encontro.

Converso frente a frente com o ponto

onde meus olhos convergem.

Desfaço as mesas. Desfaço-me de tudo

quanto é silencioso e mudo.

Encho de absurdo o motor.

E os meus companheiros do instante

em que ninguém se conhece

vão comigo.

Vamos de viagem para a terra

onde tudo o que é

inclusive aquele café

é tudo menos o que parece!



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publicado por jose murta lourenço às 18:44

LISBOA POESIA EM SETE COLINAS 16

19.01.12

 

 

 

Há um ruído de fundo feito de muitos ecos

de sons que saem secos

de bocas deste mundo.

Palavras em surdina…Pcht! Pcht!…Uma trança!

Uma cesta na mão de uma menina

a quem sorriem por ser criança.

Ao longe come - se mil folhas.

Alonga - se o tempo no doce.

E outras bocas têm rolhas

fechadas e mudas sempre.

Rostos de meia idade e outro tanto

contam entre si o mesmo de sempre

e os olhos fingem ficar grandes de espanto

pela notícia que nem ouvem , surpreendente.

Duas mulheres, mãe e filha talvez

pedem chá e servem-se com o ritual

de quem o bebe pela primeira vez

nos jardins de um palácio real.

Acompanham -no  com uma torta e um caracol

e com delicadeza vão - se deliciando

no açúcar, no mel  e na farinha mole

que as delicadas bocas vão mastigando.

No fim do dia os pires ficarão como elas ficam.

Nostálgicas e vazias.

As migalhas que restam darão suspiros

e as chávenas descansarão por uns dias.

No próximo sábado novo bulício

num ciclo eterno sempre diferente.

E de novo os olhos brilharão sem o suplício

de se estar só…

no meio de tanta gente!



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publicado por jose murta lourenço às 11:55

LISBOA POESIA EM SETE COLINAS 15

17.01.12

 

 

 

 

 

 

No Sul América

longe de tudo

e aqui tão perto

chávenas e copos

fazem concerto.

Trabalha a máquina registadora.

Martela a tecla de metralhadora.

Ouve-se um coro de vozes em surdina.

E agora bem alto

o pregão de um ardina.

 

É assim no Sul América!

Longe de tudo

e aqui tão perto

ouve-se em sussurro

um estranho concerto…



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publicado por jose murta lourenço às 09:03

LISBOA POESIA EM SETE COLINAS 14

16.01.12

 

 

 

 

 

Na rua Nova da Lapa

a velha Igreja de Sant’ Ana

deu - me guarida.

Tal como eu

um dia nasceu

para poente erguida

e renasceu

depois de destruída.

Renasceu

para Sul virada

olhando eternamente

o outro lado do rio.

Na outra banda

Almada

e bem mais distante

o meu distante berço

de distante Algarvio.



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publicado por jose murta lourenço às 11:45

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